sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Estranho

Considero muito estranho o cancelamento da edição deste ano do Lisboa Dakar por razões de ameaça de terrorismo.
Que se saiba, há muito tempo que os territórios de África por onde a prova passa, circulam e estão estabelecidos vários grupos terroristas. Provavelmente, nos anos anteriores, o risco de atentados terroristas, nomeadamente em Marrocos era maior. Conforme os diversos ataques de que Marrocos foi alvo podem atestar.
E, estranho mais, quando o Governo francês surge e é decisivo no cancelamento da prova, por causa do assassinato recente, na Mauritânia, de quatro cidadãos franceses.
Ora, na região, o perigo, em termos de terrorismo, reside, presentemente, na Argélia, como os últimos tempos tragicamente têm comprovado. Só em 2006 morreram 500 pessoas na última colónia francesa devido a atentados terroristas. Já este ano, mais umas pessoas morreram na sequência de um ataque perpetrado numa cidade perto de Argel. Isto significa que os Estados vizinhos da Argélia, como a Mauritânia, estão a salvo e imunes ao terrorismo, em especial da célula da Al-Qaeda que opera no Magreb (o antigo Grupo Salafista para a Predicação e Combate)? Obviamente que não. Porém, depois do que sucedeu em Setembro de 2001, só agora é que há perigos? Antes não haveriam os mesmos riscos?
Riscos, no Dakar, existem sempre.
Por acaso gostaria de saber, se tivesse um condão que me dissesse o que se poderia passar, se o percurso fosse Paris Dakar haveria ou não prova.

1 comentário:

Pedro Miguel Cardoso disse...

Dakar sobreviveu a tudo, menos a ameaça terrorista

Em 30 anos, o Rali Dakar sobreviveu à morte de quase cinco dezenas de pessoas e ao desaparecimento do seu criador, o francês Thierry Sabine

por visao.pt - 04 Jan 2008

A 14 de Janeiro de 1986, a mais importante prova todo-o-terreno mundial, cuja 30ª edição devia largar sábado de Lisboa, ficou órfã do seu «pai», quando uma tempestade de areia tirou a visibilidade ao piloto do helicóptero utilizado por Sabine na busca de concorrentes perdidos.

Pelas 20h00, a aeronave embateu numa duna, a cerca de 10 quilómetros de Gurma Rarous, no Mali, ceifando a vida a Sabine e aos restantes quatro ocupantes, mas nem esta tragédia chegou para parar a caravana.

Os conflitos armados em África também colocaram em perigo a mítica prova por diversas vezes, provocando mesmo duas vítimas mortais: Charles Cabannes (1991) e Laurent Guéguen (1996).

Cabannes perdeu a vida ao ser baleado na nona etapa entre Tília e Gao, no Mali, num incidente imputado ao conflito entre o exército maliano e os tuaregues, que provocaria a anulação das duas etapas seguintes, até à neutralização em Néma.

A explosão de uma mina do exército marroquino, na etapa entre Foum El Hassan e Smara, em Marrocos, reduziu a escombros o camião Mercedes de Guéguen, transformando o piloto em mais uma vítima da luta da Frente Polisário.

O Rali Dakar foi alvo de ameaças terroristas e incidentes em diversas outras ocasiões, quase sempre com consequências limitadas à anulação de etapas, a mais grave das quais aconteceu na edição de 2000, quando foi mesmo necessário realizar uma ponte aérea entre o Níger e a Líbia.

A organização anulou então quatro etapas e suspendeu a prova durante cinco dias em Niamey, até consumar a hercúlea tarefa de transportar a gigantesca caravana a bordo de aviões de carga Antonov 124.

Em 1993, as ameaças de grupos terroristas islâmicos levaram a organização a abandonar os percursos pela Argélia, país que nunca mais viu passar o rali.

Quatro anos mais tarde foi anulada uma etapa entre Gao e Tahou, após um conflito entre tribos tuaregues que fez dois mortos, e em 2004 aconteceu o mesmo com duas tiradas no Mali, tendo os pilotos dos automóveis feito uma ligação por comboio e os das motos por avião até ao Burkina Faso.

Na última edição, as ameaças do Grupo Salafista para a Predica e o Combate (GSPC) argelino, rebaptizado de Braço da Al-Qaida para o Magrebe Islâmico (BAQMI), obrigaram à anulação de duas etapas no Mali.

Este ano, novas ameaças e dois incidentes com contornos pouco claros, que provocam a morte de quatro turistas franceses e de três militares mauritanos, levaram o governo gaulês a avisar os seus cidadãos para evitarem deslocações à Mauritânia.

Estava iniciada uma cadeia de incidentes que acabaria por resultar no cancelamento da prova, anunciado hoje pela organização no Auditório do Centro Cultural de Belém, em Lisboa.

A 30ª edição da prova devia começar sábado em frente ao Mosteiro dos Jerónimos, em Lisboa, e terminar no dia 20 de Janeiro na capital senegalesa, junto ao Lago Rosa.